Em 1998 o Brasil vivia momentos de otimismo e credibilidade internacional. O mercado aquecia-se e a venda de automóveis estava em alta. Nesse embalo, as picapes viravam coqueluche da classe média, que desfilava Rangers, S10 e até algumas importadas, como a Dodge RAM ou Dakota. O tamanho servia também para impor respeito no caótico trânsito das grandes cidades. Num lampejo de criatividade e oportunismo, Gerson Marques, um entusiasta paranaense teve a idéia de colocar esses carros na pista, lançando em parceria com os filhos Gerson Jr. e Gledson, a semente do novo campeonato, que só seria homologado em 2000 e que trazia um diferencial importante: os motores eram todos movidos a GNV – gás natural veicular, pioneira no mundo. Porém, a primeira prova oficial aconteceu somente em oito de abril de 2001, no autódromo de Tarumã, RS. Mas nem tudo eram flores e as dificuldades de se manter um campeonato brasileiro, aliadas à morte do "Gersão" em 2003 jogaram a categoria numa ciranda que variava entre dificuldades financeiras, ações na justiça e corridas organizadas na raça. Os filhos faziam o possível para não deixá-la morrer e por várias vezes a associação de pilotos ajudou a bancar as despesas, num esforço conjunto de sobrevivência. Em 2006, os motores V6 passaram a utilizar etanol, que, somado ao sistema bi-turbo que já era utilizado nos GNV, deixou-os com aproximadamente 400cv. Porém, a fórmula promocional mostrava-se frágil e ainda enfrentando sérios problemas financeiros, a saída foi a entrega dos direitos à Vicar Promoções - empresa que organiza e promove a Stock Car - na metade no ano passado.
Os carros ficaram mais velozes, mais bonitos e a diferença entre eles ficou menor, proporcionando corridas empolgantes. A comparação com a Nascar Truck Series, preliminar da Nascar norte-americana é natural e ninguém esconde que ela é o alter-ego da nossa Stock Car. As picapes antigas, derivadas de modelos de rua foram descartadas, a favor do mesmo chassi tubular da Copa Nextel, promovendo a disputa entre os modelos Mitsubishi L200 e Chevrolet S10. “Reformulamos a categoria com base em um modelo vencedor, como ocorre na Nascar Truck Series e na própria Stock Car. “Trata-se de um novo produto destinado a uma nova gama de empresas ligadas ao mundo “outdoor”, aventura e ao conceito “fora de estrada”, afirmava Carlos Col, diretor presidente da Vicar.
A primeira etapa desse ano, que inaugurou a nova fase aconteceu em dia de gala no autódromo de Interlagos, diante de mais de 42 mil espectadores. Entre as várias estréias, destaque para a presença do piloto Dudu Massa, irmão do piloto da Ferrari na Fórmula 1. O grid foi dividido entre equipes da antiga Pickup e as da Stock Car. E nessa mescla de experiência, deram-se melhor os times já acostumados aos chassis tubulares. As equipes Gramacho/Stédile e Full Time Sports dominaram a temporada, enquanto as que vieram do campeonato passado, os chamados “picapeiros”, ficaram em flagrante inferioridade. A Pickup Racing tem calendário independente da Copa Nextel. Apenas três de suas oito etapas coincidiram, e três delas aconteceram em autódromos inéditos, como na inauguração de Santa Luzia em Minas Gerais, além de Caruaru e Fortaleza.
Carlos Kray, um dos pilotos da “velha” picape e líder da antiga associação, tem sua opinião: “Só tenho elogios à nova organização e ao novo formato. Demos um salto de qualidade e profissionalismo inegável, foi um ano duro para nós, de aprendizado e muito investimento, mas a expectativa para 2009 é a melhor possível. Saímos de um pacote técnico completamente diferente do atual e penamos por toda a temporada para decifrar os segredos do novo conjunto. Estamos reformulando completamente a CKR Racing para 2009 em busca do profissionalismo total, sem o qual não há chance de vitória dentro do evento”, concluiu o piloto de Novo Hamburgo, RS.
O título da temporada ficou com o paulista Gustavo Sondermann, que venceu cinco das oito etapas, conquistando o título com duas provas de antecedência. O vice-campeonato foi decidido na última etapa, ontem (07/12) em Interlagos, a favor do também paulista Felipe Lapenna. O terceiro lugar ficou com Paulo Salustiano e o quarto com Thiago Riberi, quatro pilotos das duas únicas equipes que já conheciam o equipamento, Gramacho/Stédile e Full Time. Representando a organização, Geraldo Marques Jr. mostra otimismo: “Mudou da água pro vinho. Tínhamos inúmeras dificuldades para realizarmos o campeonato. Agora, com a chancela da Vicar ficou tudo mais fácil. Estamos no caminho certo, fazendo preliminares da Copa Nextel e desbravando territórios. É crescer a cada ano e agregar cada vez mais fãs para a categoria”. O catarinense Marcel Wolfart, um dos “picapeiros” e último campeão da era antiga também dá seu testemunho: “O atual carro é bem melhor de guiar, com mais tecnologia. A categoria está mais competitiva e profissional, melhor organizada, mas nesse ano faltaram treinos para os “picapeiros”, que não conheciam este carro.
A Pickup Racing é uma categoria que venceu pela persistência. Cambaleou pelas próprias pernas, chegou a ser cogitada como preliminar fixa da Fórmula Truck, quase faliu, mas acabou integrando-se à Stock Car e reerguendo-se no cenário esportivo e ganhando os músculos necessários para seguir em frente numa jornada que promete colocá-la entre os grandes sucessos de nosso esporte. Os números para 2009 são promissores e as projeções indicam 34 carros no grid de 2009, já que a Pickup Racing é a forma mais inteligente e barata de se entrar na “família Stock Car”.